sábado, 21 de janeiro de 2017

A Ratoeira

A paixão de Uriel eram os seus chocolates. Metia-os na última gaveta, lá no fundo, para que ninguém soubesse de seu tesouro. E quando os comia, fazia-o sozinho e em silêncio, de portas trancadas e olhos buliçosamente assustados. Sentia um medo irracional de ser flagrado com suas guloseimas.

Um acesso de raiva, uma raiva mortal, que Uriel conteve num lampejo de lucidez, foi o que sucedeu. Quase chegou a experimentar o arrependimento que sentiria, se tivesse sucumbido aos impulsos primitivos da ira. Mas Uriel controlou-se. Não praguejou. Não esmurrou a mesa. Não ameaçou os colegas. Substituiu toda expressão de ódio por uma fisionomia impassível, enquanto o cérebro trabalhava em ritmo frenético. Agora era descobrir quem furtara os seus chocolates.


Pôs a isca. E esperou. O rato miserável era mais esperto do que ele supunha. Quando examinou a gaveta, constatou que os seus preciosos chocolates haviam desaparecido novamente. Precisava descobrir, urgentemente, quem era a ratazana infeliz. Certamente não era alguém do turno da noite, no qual trabalhava há dois meses. Ele e mais dois abnegados. Talvez alguém da limpeza. Ou a moça do cafezinho, que preparava as garrafas térmicas antes de se meter na interminável fila de ônibus. Talvez até mesmo o chefe. O mandachuva tinha mesmo cara de ladrão. Não o via nunca. Trabalhar às madrugadas é dureza, sente-se um sono maldito, mas tem as suas vantagens.

Porém, muito em breve saberia. Porque, desta feita, a ratoeira funcionaria perfeitamente. Uriel mergulhou remédio de rato - desses que se vendem clandestinamente em camelôs - nas inúmeras barras de chocolate. Com esmero, Uriel reembalou as poções envenenadas, uma a uma. Um trabalho lento e cauteloso. Um resultado perfeito. E aguardou que o gatuno viesse. E que o mortal carbonato fizesse generosamente a sua parte...

“Agora pego este filho de uma puta”, foi o que pensou Uriel, ao fechar a gaveta.

Uriel acordou sobressaltado. Salivava excessivamente. Os olhos eram duas tochas ardentes, donde manavam lágrimas de fogo. Das narinas, escorria uma secreção pesada e sem fim. E, apesar do choque, o coração batia devagar. Quis se erguer, mas não conseguiu. O seu peito pesava uma tonelada e   os pés eram como se  não existissem. Seguiram-se os tremores e os espasmos, até que, por fim, um nó espesso cingiu violentamente a sua garganta, selando a agonia.

Tido injustamente por suicida, assim morreu Uriel, que fora sonâmbulo a vida inteira, mas não o sabia.

Autor: Mephisto
fonte: contosdeterror.com.br

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Encantadora


Naquela noite, quando ele pediu abrigo na casa de meu pai, eu olhei em seus olhos e soube que deveria ser sua até meu último alento. Por isso, não hesitei em levá-lo pela mão ao velho celeiro, onde nos entrelaçamos como serpentes sobre a palha e uivamos como lobos até o amanhecer.

Eu já não era uma donzela então, mas meu conhecimento do corpo do homem deu-lhe prazer repetidas vezes e ele nunca me perguntou quem haviam sido os outros. Isso não importava. Foi assim ao longo de todo um ano. Ele vinha da fazenda onde trabalhava para o celeiro. Lá, eu o esperava como a terra espera a chuva, e nós ríamos, nus, comendo as amoras que eu trazia do bosque.

No inverno seguinte, meu velho pai faleceu da tosse sanguinolenta que eu pudera apenas tratar com meus elixires e vapores, mas nunca curar. Fiquei sozinha. Então, disse ao meu amante que ele deveria ser o novo homem da casa.Sei que me aceitaria prontamente como sua mulher, mas ele morava ainda com a mãe, alma triste que não queria ver seu menino tornar-se um varão. Ela me chamou de messalina e encantadora de homens e disse que ele seria infeliz ao meu lado, pois eu me deitaria em outras camas e ele teria de alimentar os filhos de outros homens. Ela não abençoou nossa união.

Mas um corvo se sentou no meu portão e me disse que eu devia orar para a deusa esquecida, senhora da vida e da morte, adorada por minha avó e pela avó de minha avó. Assim, entrei no bosque, procurei a erva que mata e dela extraí o veneno verde.No mercado, furtei o lenço que a mãe de meu amado levava nos cabelos e o levei para o meu local secreto, na mata, onde o mergulhei na vasilha de veneno e rezei três vezes por meu sucesso.

À noite, aquela que me negara o que eu mais queria fechou os olhos num sono profundo e não os abriu mais. Eu também gostaria de partir assim, um dia, sem sofrimento.Seu filho buscou conforto em meu regaço e não mais deixou minha casa.

Levamos uma boa vida. Plantei flores para a deusa sob a janela, em agradecimento, e meu homem gostava do perfume que enchia a casa. Ele tosava os cordeiros e eu fiava a lã. Ele cortava a lenha e eu preparava seu banho quente e esfregava suas costas e recebia sua semente em meu corpo.Tinha seus companheiros na cidade. Quando chegava tarde da noite, bêbado, trocando as palavras e as pernas, eu o despia e o punha na cama como a um bebê.

Eu era sua fêmea, sua amiga e sua mãe. Ninguém poderia amá-lo como eu o amava.Em algum momento, porém, ele duvidou disso. Eu soube quando chegou com um olhar diferente. Estava sóbrio e não procurou por meu abraço.

De manhã, cheirei sua camisa. Perguntei-lhe quem era ela. Ele disse que não havia ninguém.Era mentira. Achei três fios de cabelos presos ao colarinho de sua camisa. Longos e louros. Nem meus, nem dele.

Eu a encontrei na praça da igreja, voltando da missa, na manhã de domingo. Era pouco mais do que uma menina, esguia e branca, a cabeleira dourada presa num toucado simples, os seios atrevidos espetando o vestido. Mais moça do que eu. Certamente era leviana como todas as jovens formosas.Toquei em seu ombro e ordenei que não tornasse a ver aquele homem. Que nunca mais se aproximasse dele.

Ela se voltou, mas saí com pressa e não deixei que conhecesse meu rosto.Meu marido descascava uma maçã na soleira de nossa porta quando cheguei. Ajoelhei-me por trás dele e o envolvi em meus braços. Admiti que ela era bela e cheia de vida, mas não o amaria para sempre. Não como eu. Que não voltasse a procurá-la.

Mas ele não seguiu meu conselho. Por mais de uma vez eu o vi retornar com o raiar do dia às suas costas e o cheiro da amante em suas roupas. A menina também ignorara meu aviso.Por isso, esperei o início do novo ciclo da Lua, tomei os três fios de cabelo e os meti no barro. Do barro, fiz uma boneca. Sobre ela, joguei urina e excremento de cão doente durante todas as quatro fases.

Foi assim que meu marido voltou a passar suas noites em casa e a pedir minhas carícias. Não visitou mais a amante. Os cabelos dela haviam se tornado cinzentos, seu rosto se desfigurara com vincos e furúnculos e seus seios, outrora viçosos, caíram como os peitos muito sugados de uma velha ama-de-leite. Sei disso porque fui ao milharal do vizinho e os corvos me contaram. Nada disse a meu amado. Acreditava que ele tivesse aprendido sua lição.

Nossa vida voltou a ter luz. Foi quando a deusa decidiu nos abençoar com um filho. Quando eu disse a ele que minhas regras já não vinham, ele sorriu e chorou e me beijou no umbigo.Mas a dádiva tinha uma dupla face e eu padeci das dores que acompanham certas mães antes de se tornarem mães. A expectativa fez de mim uma mulher ansiosa que já comia por dois. Minha barriga ainda não crescera quando meu corpo se tornou grande e pesado e irritado ao toque, e meu marido deixou de me procurar.

Não podia culpá-lo, pois sua natureza masculina mandava que fecundasse todas fêmeas no grande pasto da Criação. Mas eu precisava dele ao meu lado naquele momento como jamais precisara antes. Devia mostrar-lhe o tamanho do meu amor, fazer com que compreendesse que era maior do que a desonra da esposa traída, o sofrimento da mulher desprezada ou o encanto das moças que se debruçavam noutras janelas.Naquela noite eu fui à cidade, seguindo meu homem a distância, para testemunhar seu encontro adúltero. Essa amante não era tão jovem. Era uma viúva já madura, forte, com cabelos cor de avelã.

Voltei à sua casa pela manhã, bem cedo. No varal dos fundos havia uma anágua branca recém-lavada. Serviria. Levei-a comigo.À tarde, mandei matar um cordeiro e guardei seu bucho.

À noite, ceamos sua carne e depois, com a Lua alta, eu meti a anágua no estômago do animal e o deixei em meu local secreto para que apodrecesse.No dia seguinte, a doença começou a consumir devagar o corpo da mulher. Quando o último pedaço de entranha do animal se desfez sob as formigas e os besouros, ela faleceu.

Destruir as amantes de meu marido poderia tomar anos de minha vida. Ele sempre encontraria outra que o agradasse e eu seria sempre grande e desajeitada, carregando e parindo sua prole. Eu sabia que o novo castigo precisaria ser maior, por muito que me doesse executá-lo.Por isso, entrei no bosque e colhi as ervas proibidas. Orei por toda uma manhã e toda uma tarde, pedindo perdão pelo que já fizera e pelo que ia fazer. Depois, fervi água do poço, preparei uma forte infusão e a bebi, pedindo à deusa que aceitasse de volta a criança que dormia em meu ventre.

A dor me despertou de madrugada e eu gritei por longas horas, vendo meu corpo verter um sangue cheio de nódoas negras. Meu marido chorou até o amanhecer, ora ajoelhado aos meus pés, ora lavando meu corpo com água fervida. Ele foi o melhor dos homens nesse momento e mandou que o criado fosse à cidade chamar a parteira para cuidar de mim.Logo que chegou, a mulher disse que não havia nada a ser feito, pois eu não desejava aquela criança e por isso a estava expulsando do meu corpo. Se ele queria que eu sobrevivesse, disse ela, deveria deixar que eu repousasse até me recuperar e me servir fígado cozido e sopa de galinha. Também seria bom que tomasse chás calmantes e banhos quentes. Ela ofereceu a própria filha como enfermeira. Era boa no trato de moléstias, disse ela, e poderia ajudar no serviço da casa até que eu me curasse.

Quando ela nos deixou, meu marido perguntou por que eu tinha feito aquilo. Seus olhos estavam vermelhos. Respondi que ele precisava cuidar do que tinha em casa em lugar de procurar distração fora dela.No dia seguinte, a filha da parteira começou a trabalhar para mim. Era muito magra e tinha pescoço longo e olhos encovados, mas cumpria as tarefas da casa em silêncio, fazia boa comida e me ajudava a me lavar. Ela tornou minha aflição suportável.

Meu homem também era quieto agora e vagava pela casa como uma sombra. Eu sabia que estava infeliz porque seu filho não ia mais nascer, mas era nessa infelicidade que ele reaprenderia a zelar por sua família.Logo que me senti mais forte, procurei por seu corpo na noite e ele não me rejeitou. Nós nos amamos sem palavras e refizemos nos braços um do outro um pacto mudo de afeto e lealdade. Bastava de noites noutras camas e beijos noutras bocas. Senti que voltaríamos a ser felizes.

Naquela manhã, um corvo entrou no meu quarto e pousou na cabeceira da minha cama. Ele me contou que a deusa ia me mandar uma criança.Percebi que era verdade algumas semanas depois. Gritei de alegria. Meu marido voltou a sorrir. Apesar das minhas falhas, a divindade me amava, pensei.

A filha da parteira seria minha criada e enfermeira durante os nove meses e por quanto tempo eu necessitasse de seu auxílio depois disso. As dores e enjôos voltaram, mas ela cuidou de mim. Meu marido não saía mais à noite. Eu adormecia olhando para seu rosto e, quando despertava, ele ainda estava ao meu lado.Foi neste lar de ternura e harmonia que você nasceu, minha filha. Eu e seu pai já a amávamos quando a tomamos nos braços pela primeira vez. Nunca uma criança foi tão bem-vinda a este mundo.

Mas eu havia cometido muitos erros, minha menina querida, e a mesma dádiva que a trouxe para mim fez-se maldição quando levou minha saúde. Eu quase não tinha leite para você e nem sempre podia nutri-la. A parteira trouxe sua filha mais velha, que fora deixada por um marido cruel e dera à luz um menino morto. Tinha leite para mais de uma criança em seus seios.Ela foi a sua mãe mais do que eu, pois logo eu mal podia tê-la em meu colo. Vieram as febres freqüentes e as dores no abdome, nas costas, na garganta, na cabeça. Os abscessos por todo o corpo. A fraqueza. A comida regurgitada.

Meu marido não podia mais dormir ao meu lado. Eu cheirava mal e sujava a cama. Então, ele passava as noites no quarto menor. Num leito junto ao seu, menina querida. Para ficar perto de você e niná-la quando chorasse no meio da noite.

Num leito junto ao da sua ama-de-leite. Para ficar perto dela e... Meus ouvidos ainda eram bons, filha, e eu sabia o que seu pai estava fazendo. O que voltara a fazer. Seus lábios pequeninos de bebê não eram os únicos a se aconchegar naquele regaço e sugar aquelas mamas. De dia, a mulher sorria para mim, condoída; mas, à noite, comia no prato que era meu.

Para mim, foram meses de uma agonia que não se abrandava. Para eles, meses de uma espera jubilosa. Eles esperavam o meu fim.Eu só não sabia quem estava me trazendo, aos poucos, esse fim. Podiam ser as famílias das mulheres a quem eu prejudicara, a uma, destruindo a beleza, a outra, dando uma morte dolorosa. Podia ser alguém próximo a mim. Alguém que profanara meu lugar secreto no bosque e conhecia as artes da cura e da doença como eu e minha avó e a avó de minha avó. Alguém que era bom no trato das moléstias... alguém cuja irmã se deitava com o marido da mulher que matava suas amantes e não poderia ser detida senão pelos mesmos meios.

Eles estão me matando. Meu amado e as duas serpentes que eu acolhi em minha casa.Ontem, pela manhã, contei ao seu pai que você logo será órfã de mãe. Ele não me olhou nos olhos. Nada disse. Mas, à noite, respondeu que eu serei enterrada sob as árvores de que tanto gosto e que sua amásia ficará nesta casa e cuidará de você como se fosse sua própria filha.

Você deveria ser aquela a quem eu ensinaria tudo o que minha mãe me ensinou e que ela aprendeu com a mãe dela. Aquela que eu levaria ao meu local secreto e a quem mostraria meus segredos. A você, filha da minha carne, e a ninguém mais.Dói-me na alma e no corpo pensar em perdê-la para uma madrasta vulgar e um pai desleal. Eu ofereci a ele meu amor e minha vida e recebi apenas traição, desprezo e morte. Não posso partir sabendo que ele será feliz sem mim, filha querida, e que quando crescer você não saberá o nome de sua verdadeira mãe. Não depois de tudo o que ele fez. Não depois de tudo o que eu fiz.

Por isso é que, esta noite, esperei que todos se recolhessem, reuni as poucas forças que me restavam e fui para o bosque. Fiz minha última oração e minha última colheita. Soquei muitas folhas e as fervi na água. São as folhas do sono-que-não-termina. Folhas que matam.Faço dessa infusão minha libação derradeira.

Agora, enquanto eu a recolho de seu berço, querida, ela age em meu corpo, preparando-o para um fim sereno.Agora, enquanto eu a aconchego em meu seio e lhe ofereço o pouco leite que tenho, ela agirá no seu.

Eu a amo. Ninguém neste mundo poderá amá-la tanto assim.

Venha comigo, meu amor. Não vai doer.

Fonte: Contosdelitfan.blogspot.com

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Corpo Seco


Uma súbita e quente rajada de vento levantou com ímpeto os particulados áridos e as folhas avulsas daquele vasto campo à beira da estrada. Embora marcante, a ação da ventania não se mostrou duradoura, não tardando para que a calmaria voltasse a reinar nas cercanias do distante pomar.

Nenhuma anormalidade se mostrava evidente nos numerosos e diversificados exemplares frutíferos ali expostos. A exceção se fazia valer numa alta e frondosa mangueira, cujos frutos jaziam no chão. A exuberância em degrade verde e dourado era assaltada por uma ação invisível e avassaladora, a qual tomava para si o viço marcante dos frutos, entregando a eles, em contrapartida, um revestimento acinzentado e opaco, um frágil castelo elevado aos céus pelo delicado beijo de uma simples corrente de ar.


A árvore, de tronco espesso e imponente, sinalizava ter sido dominada pela mesma força devastadora que aniquilara, com extrema facilidade, os contornos maduros, os quais eram, até então, exibidos com orgulho em suas extremidades. Semelhante à maneira repentina e destrutiva com a qual as ardentes lufadas de ar dominaram os limites locais, o agente oculto tratou de retorcer e curvar os robustos galhos da mangueira, empalidecendo e fazendo cair toda a verdejante folhagem, comprometendo e secando toda a sua estrutura, reduzindo-a a um monte cinzento, triste e morto.

A manifestação sobrenatural e inexplicável não era fruto da vontade da natureza, pois esta, justa e sábia em sua essência, há muito tratara de expurgar de suas entranhas a abominação representada pelas linhas malditas daquela criatura. A terra, revestimento sagrado dos mortos, não admitia tal presença entre seus grãos.

O amaldiçoado tentava se resignar, mas era difícil convencer a si mesmo de que sua existência era um estorvo para o equilíbrio entre os planos. Sua estada não era bem-vinda nos reinos de luz, muito menos tolerada nos níveis mais baixos das trevas, suas atitudes o transformaram num condenado sem direito a descanso.

Vencido mais uma vez, ele ergueu seu ressequido corpo das cinzas, as quais ele mesmo fora o responsável pelo surgimento. Com pesar iniciaria uma nova jornada, nenhum ser vivo o tolerava por muito tempo. Ele buscava abrigo nas cascas das árvores porque seu caminhar era tortuoso e dolorido. Por mais que soubesse que sua permanência entre o vegetal não fosse de grande valia, ainda assim, ele preferia tal investida a ter de se deslocar pelo descampado, a não ser que tivesse um bom motivo para fazê-lo. Uma razão que o atraísse como a força de um poderoso imã.

Sua pele enrugada e sedenta pressionava o esqueleto desprovido de carne e músculos. O atrito produzido pelo movimento de seu corpo proporcionava a mais lancinante das dores, algo insuportável até mesmo para alguém de sua natureza. Ele arfava conforme caminhava, nenhuma língua ornava a escuridão putrefata de sua boca, um vão cravejado por filamentos cerrados em substituição aos antigos dentes. Nenhuma gota de saliva se apresentava naquela cavidade, apenas um pó enegrecido e fétido, o qual era expelido em profusão, contaminando o ar ao seu redor.

Um amontoado de ossos revestido por uma pele em eterna decomposição. Danação e penitência num incessante vagar sobre uma superfície que não o suportava. Ingrata busca pela redenção de seus pecados.

Olhos há muito não possuía. Por conta disso, precisava se orientar pelo olfato, sentido traiçoeiro que lhe acendia a penúria pela míngua de víveres. Ele se arrastava em busca do perfume irresistível, a tal força que o impelia.

A praça estava repleta, os populares iam e vinham por conta de seus afazeres. O vazio em seu estômago era um espaço infindável. Muitos o viram e caíram, vencidos por incomparável choque. Outros o encontraram e fugiram. Inúmeros o contemplaram e gritaram. Mas ele só precisava de um, e o agarrou. O ser humano sob seu jugo tinha sonhos, como ele mesmo tivera um dia, mas diferentemente da garota em seus braços, ele os suprimiu, deixou que fossem consumidos pelos atos mais vis que um vivente poderia cometer.

Assim se tornou um corpo seco. Agora usava a rigidez de seus dedos para rasgar de forma ávida a carne da indefesa vítima, fazendo brotar uma fonte rubra de nutrientes e dor. O frenesi o impulsionou a cravar os aguçados fios de sua boca na suavidade crua daquela pele. Com movimentos apressados arrancou um bom pedaço do apetitoso tecido, engolindo-o sem mastigar.

Da mesma forma que a terra não acolheu sua carcaça amaldiçoada, como o céu e o inferno rejeitaram sua presença, o alimento não encontrou morada em seu corpo. O caminho inverso fora inevitável e a carne regurgitada. Ele gritaria se tivesse voz. A balbúrdia à sua volta era crescente, inúmeros e repetidos impactos o acometeram, ele desejava o toque frio da morte, mas já estava morto, apesar de não ser merecedor do descanso eterno.

O vozerio era insuportável, sua dor era insuportável! Frases sagradas e de libertação foram proferidas, água abençoada foi lançada sobre seu corpo. Ele rogou por sua mãe, a razão do seu martírio, pediu por seu perdão, implorou por alívio e paz.

Uma luz incandescente o envolveu, a multidão se afastou tomada pela surpresa e pelo medo. Seu corpo se curvou em posição fetal, seus membros se dobraram e mesclaram ao tronco. Logo, os contornos evidentes da criatura não passavam de uma estrutura ovalada e seca. Sem demora um estampido se fez ouvir e uma cortina de fragmentos particulados foi lançada ao ar. Com o dissipar da fumaça, os incrédulos olhos testemunharam o completo desaparecimento do ressequido corpo. Nos corações daquelas pessoas ficou a certeza de que a completa superação de tão incomum experiência tardaria a ter o mesmo fim.

Muito longe dali, um vento abafado e repentino produziu um espiral ao redor de uma árvore. A poeira suspensa no ar se uniu e moldou as linhas de um corpo, deixando claro que, para alguns pecados, não há possibilidade de redenção.

Fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/corpo-seco.html

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A Pena do Corvo


Comprei a pena do corvo por um preço absurdo. O contrabandista garantiu que pertencera ao renomado poeta. Possuo muito dinheiro. Quando afirmo isso, creia que não se trata de pouco. Para ter certeza de que tenho em mãos o artefato verdadeiro, mergulho sua ponta em um pote de tinta nanquim. Em seguida, começo a escrever em uma folha de papel branco. Pelo o que se afirma em nosso seleto círculo, o famoso prosador utilizou a pena em seus momentos mais febris de imaginação e criatividade. Seria essa a explicação para textos tão fantásticos e idolatrados pela contemporaneidade? Em sua própria época, o escritor não obteve o verdadeiro e merecido sucesso.

Na era do computador parece uma prática tão sem sentido voltar-me para o uso da tinta e do papel que rio da minha necessidade de ter artefatos antigos. Porém, no caso da pena, sei que é diferente. Meus pares atribuem a ela um caráter mágico. Ainda sem rumo, sem saber como funciona exatamente, deixo a mente vazia para que o artefato guie minha mão. Inicio apenas com palavras soltas sem tentar explicar sua existência sobre o papel: Maeltzel, Maelstrom, Pfall, pêndulo, diabo, Metzengerstein, carta, mistério, Wilson, manuscrito, Berenice, gato, barril, casa. Cada palavra parece conter um universo, uma história para ser contada. Não demoro para identificar a origem desses vocábulos nos títulos dos contos de Poe.


Continuo aquele estranho processo e das palavras começam a se ordenar frases prontas. Todas construções do imaginativo escritor do século XIX. Por um momento estremeço. Deito a pluma sobre a mesa. Não sabia dizer se aquelas palavras foram registradas pelo objeto ou pela minha própria consciência. A consciência representada pela lembrança exata de tudo o que havia lido da produção do mestre das letras. A razão e a loucura, às vezes, tornam-se conceitos tão próximos que já não sou capaz de diferenciar entre uma e outra. Fui eu mesmo que escrevi ou foi a pena do corvo que manifestou sua vontade? Sou favorável à segunda hipótese, pois tenho certeza de que não selecionei aquelas palavras, mesmo sendo conhecedor da obra do gênio.

E se foi mesmo a pena que proporcionou o intelecto diferenciado do mestre? Então meus camaradas estariam certos, sem dúvida. Passo a acreditar que esse frágil objeto seguro entre os meus dedos seja um instrumento do mal, projetado por algum vilão ou ente demoníaco adversário da humanidade. Artefato insuflado por rituais sangrentos com origem nos tempos antigos em que ainda se pintavam hieróglifos em papiros.

A pena do corvo liberta as palavras mais precisas do escritor e as arranja de forma ordenada nas orações, nos parágrafos, no enredo e na trama. Sorrateira, engana o infeliz que acredita escrever por vontade própria. Relega o usuário ao esquecimento em vida, o aprisiona em uma masmorra de tormento e indiferença. Leva à decadência e à degeneração. Induz à tristeza. Pois, o poeta acaba por não ser reconhecido pelo que melhor sabe fazer: compor, construir, esculpir, tecer a palavra em um conjunto de ideias. Sendo assim, seria o objeto também a causa do infortúnio de quem o empunha? A pena do corvo, ao mesmo tempo em que concede as virtudes das belas letras, também leva à degradação do humano? Pressinto que o artefato é pior do que qualquer outro vício, pois já tenho vontade de escrever novamente.

Empunho a pena mais uma vez como se fosse uma arma capaz de retirar minha própria vida. Escrevi ou ela escreveu. Não havia importância mais em determinar quem era o autor. Certo é que me dava prazer redigir. Somente por isso, já valeria um pacto com o próprio diabo. Poe representou o chefe dos demônios em um de seus contos. Eu e a pena do corvo também.

O título se delineou em uma das tantas folhas brancas dispostas sobre a mesa: Velho coxo do colarinho engomado. A primeira frase se construiu diante de meus olhos: “Eu, dois garotos e uma menina deixamos nossas casas no meio da noite”. O primeiro parágrafo continuou assim, depois da frase de abertura: “A lua cheia ajudava a iluminar a escuridão. Não havia luz elétrica naquela parte da cidade e as pilhas para lanternas eram caras. Por isso, levávamos lampiões. Exceto um dos meninos que se considerava mais corajoso do que todos. Vestíamos roupas pesadas para nos proteger do vento frio que assolava o sul do país”.

Os parágrafos seguintes se sucederam nessa ordem:

“Em poucos minutos chegamos à ponte. Uma ponte coberta que permitia cruzar o caudaloso rio da região e se proteger de alguma chuva inesperada. Fomos até lá para averiguar a veracidade da lenda que nossos pais contavam. Diziam que um velho coxo, de vez em quando, aparecia em um canto escuro da ponte. Começamos a cruzar a precária construção, e no momento em que nossos lampiões iluminaram a saída, do lado oposto, vimos o tal homem. Ele mancava. Tive a impressão de ver cascos no lugar de pés, mas não conseguia me mexer, meu sangue gelou nas veias. Vestia um traje preto, elegante e com o colarinho branco bem engomado. Disse, com um sorriso tinhoso no rosto:

— Já que vieram me conhecer. Vamos apostar uma corrida.

Acho que meu amigo não tinha plena noção do que estava acontecendo. Ele se achava realmente corajoso e esperto:

— Ora, você quer apostar corrida? Não me faça rir. Ganho de você com um pé nas costas — riu.

— O que você gostaria de apostar?

— Qualquer coisa, eu apostaria minha cabeça com o diabo!

E assim foi. Os dois começaram a correr: quem chegasse primeiro ao outro lado era o vencedor. Eu, meu outro amigo e a menina não conseguimos fazer nada a não ser gritar depois do fatídico acontecimento. Nosso amigo chegou antes do lado de fora da ponte. Realmente o velho era devagar, além de ter os movimentos desajeitados. Aquele velho, porém, se tratava do diabo em pessoa, tenho certeza. E, como todos sabem, o diabo é trapaceiro, não queria vencer, pois devia saber que um carro se aproximava. O motorista freou, mas não foi possível evitar o choque entre o veículo e o menino. O velho coxo do colarinho engomado sumiu deixando a nossa volta um cheiro inconfundível de enxofre e uma gargalhada que repercute em meus ouvidos até hoje.

No dia seguinte, o corpo foi encontrado sem a cabeça na margem do rio. Estava sobre seixos sendo bicado por uma dezena de urubus. Meus pais costumavam alertar ‘nunca aposte sua cabeça com o diabo’. Eu sempre os obedeci, sem contestar.”

Depois desse, outros contos começam a ser arquitetados. Tudo parece uma singela homenagem ao mestre. Extasiado e ao mesmo tempo exaurido de todas minhas forças, como se tivesse sido sugado por um vampiro a noite inteira, desfaleço com o clarear do dia.

Acordo com o rosto sobre os papéis. Não havia sido um pesadelo. Reúno alguns pertences básicos em uma mala, entre eles a pena do corvo. Pego dinheiro e cartões de crédito. Telefono para o contrabandista que me vendeu o artefato. Marco viagem para a cidade de Baltimore nos Estados Unidos.

Agora me interessam também os ossos de Edgar Allan Poe. Com o pó do escritor, planejo fazer uma tinta especial para auxiliar a pena do corvo. Creio que ela se tornará ainda mais eficiente se valendo da essência corporal do gênio. Depois disso vou adquirir as roupas que ele usava. Em seguida, desenterrarei sua esposa, ela deverá ser útil para ajudar na inspiração. O amor e a paixão são muito importantes para qualquer homem das letras. Poe, grande Poe, seremos um só, seremos eternos amigos. Aguarde-me, estou a caminho.

Fonte: contosdeterror.com.br

sábado, 14 de janeiro de 2017

A Missa Das Sombras - Anatole France



Eis o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d'Aumont, me contou debaixo da latada doCavalo-Branco, numa bela noite de verão, bebendo uma garrafa de velho vinho, à saúde de um morto muito abastado, que ele havia enterrado honrosamente naquela manhã mesma, sob um tecido cheio de belas lágrimas de prata.

"Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando, senhor, penetro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cavalo-Branco. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto absolutamente com isso, porque reflito que ele pode perfeitamente ir cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai, que, todavia, gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e, ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine."


Catarina Fontaine era uma velha solteirona, que ele se lembrava de ter visto em criança. Não me surpreenderia se ainda houvesse na região, até, uns três velhos que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito, porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava numa esquina da Rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver e que depende de um velho palacete arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas. Há. nessa torrezinha, figuras e inscrições meio apagadas. O falecido pároco de Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito, em latim, que o amor é mais forte que a morte. O que se refere, acrescentava, ao amor divino.

Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. O senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito. anos, o jovem cavaleiro d'Aumont, com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque Catarina Fontaine lembrava mais - uma dama, que uma operária, conservava 'sob seus cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, possuía um ar triste e se lhe podia ver, na mão, um desses anéis em que o ourives colocara duas mãozinhas unidas e que era costume outrora os noivos trocarem. O senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significa.

Catarina Fontaine vivia santamente. Freqüentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer que fosse o tempo,
ia ouvir a missa de seis horas, em Santa Eulália. Ora, uma noite de dezembro, quando ela estava deitada
em seu pequeno quarto, foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem eles anunciando a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde a noite era tão fechada que se não viam absolutamente as casas; claridade alguma era perceptível, no céu negro. E reinava tamanho silêncio nessas trevas - que nem penso um cão ladrava ao longe - que a pessoa se sentia completamente separada do mundo dos vivos. Mas Catarina Fontaine, que conhecia cada uma das pedras onde pisava e que podia ir
à igreja de olhos fechados, alcançou, sem dificuldade, a esquina da Rua das Freiras com a Rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira que exibe uma árvore de Jessé, esculpida numa volumosa trave. Tendo alcançado esse local, ela viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam sair uma grande
claridade de círios.

Continuou a caminhar e, tendo entrado, encontrou-se numa reunião, que enchia a igreja. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes, e estava surpresa ao ver - aquelas pessoas trajadas de veludo e de- brocado, - plumas no chapéu e trazendo espada, à maneira dos tempos de antanho. Havia senhoras que seguravam longas bolsas de castão de ouro e damas com toucados de nadas, presos com um pente em diadema. Cavaleiros de e Luís davam a mão a essas senhoras, que escondiam atrás do leque um rosto pintado, do qual só era visível um sinal no canto dos olhos! E todos iam colocar-se em seu lugar, sem o menor ruído, e não se ouvia,, enquanto andavam, nem o som dos passos no
lajedo, nem o roçagar dos tecidos.

 As naves laterais enchiam-se de multidão de jovens artesão, de casaco pardo. calções de fustão e meias
azuis, que seguravam pela cintura raparigas lindíssimas, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto ás pias de água benta, camponesas de saia vermelha e corpinho de atar, sentavam-se no chão com a
tranqüilidade dos animais domésticos . enquanto uns mocetões, de pé atrás delas, - alavam os olhos, rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam imobilizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Catarina Fontaine viu o sacerdote caminhar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes.

Começou a missa. Era uma silenciosa missa, na qual não se ouvia absolutamente o som dos lábios que se agitavam, nem o rumor da sineta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o
olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, tendo olhado, sem quase volver a c- reconheceu o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera fazia quarenta e cinco anos. Reconheceu-o por um sinalzinho que ele possuía sob a Orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros em seu 'rosto. Vestia o traje de caça, com botões dourados, que ele usara no dia em que tendo-a encontrado no bosque de São Bernardo, roubara-lhe um beijo. Conservava a Sua Mocidade e seu bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo.

Catarina disse-lhe, baixinho:

"Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que uma jovem possui de mais precioso, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me inspirar, finalmente, o pesar
pelo pecado que cometi convosco: porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me, quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo aqui a esta silenciosa missa."

O cavaleiro d'Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um sopro e, não obstante, mais clara que o cristal:

"Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório, que ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seu pecado foi, a exemplo do nosso, sem maldade. Enquanto separadas daqueles que amavam sobre a terra, elas se purificam no fogo do purgatório, padecem as dores da ausência, e para elas esse sofrimento é o mais cruel. São tão infelizes que um anjo do céu se apiedou de seu martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde lhes é permitido assistir à missa das sombras, segurando-se pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido ver-te aqui antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus."

E Catarina Fontaine lhe respondeu:

"Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que te dava de beber na floresta."

Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande
salva de cobre aos presentes, que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas, desde muito tempo fora
de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados, nobres com a rosa, e as moedas caíam em silêncio.

Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata. Depois, o velho cônego parou em frente de Catarina Fontaine, que procurou em seu bolso, sem nele encontrar, nada. Então, não desejando recusar sua dádiva, tirou
do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua morte, e atirou-o na concha de cobre. O anel de ouro, ao cair, ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroador que ele fez, o cavaleiro, o cônego, o oficiante, os agitaram, as damas, os cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas Trevas.

Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu, nestes termos:

"Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu pai e creio que é verdadeira, porque corresponde a tudo o que tenho observado das maneiras e dos costumes peculiares dos defuntos."

"Convivi com os mortos, desde minha infância, e sei que eles costumam voltar a seus amores."

"É por isso que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros que eles esconderam durante a vida. Montam boa guarda à volta de seu ouro; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos, e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado na terra, pesquisando-se o sítio freqüentado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm atormentar, à noite, suas mulheres, casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que o haviam feito em vida..."

"Esses são dignos de censura, porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viúva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:"

"Na manhã seguinte a essa noite extraordinária, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou, na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com duas mãos entrelaçadas. Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho?"

Adaptado do Livro "Mestres Do Terror"

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/a-missa-das-sombras-anatole-france.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Invocação de Horthembrak


Quem é Horthembrak?

Uma espécie de espírito ou entidade muito comum em lendas urbanas. Não se sabe de onde surgiu a crença, só sabemos que ela ficou muito famosa na região norte do Brasil.

Horthembrak não tem uma definição própria, alguns dizem que ele é um espírito outros que é um demônio, mas a maioria delas assume trata-se de um ser do mundo dos elementares, uma espécie de essência natural inteligente. Muitos acreditem que ele não possua forma própria e que só assume alguma característica física quando quer entrar em contato com humanos.


É representado pelo número noventa e nove e tem como característica a inteligência sublime, por isso é muito admirado e invocado por muitos até hoje, já que representa o principal guia de magos e bruxos modernos.

Por ter aceitado dividir seus conhecimentos e princípios, que vão além da nossa razão, com os humanos, foi banido de sua dimensão, e foi obrigado a viver no umbral. Vivendo em várias dimensões diferentes.

Tem como aparência o rosto completamente pálido, tendo em sua cabeça a total ausência de nariz, olhos e orelhas, enfim, a total ausência de traços humanos, exceto pela boca com enormes lábios negros donde expõe constantemente sua língua negra, semelhante a uma língua de cobra. Muitos dizem que ele possui rabo, mas nem todos acatam a idéia.

Assume uma forma mais apresentável quando está próximo a humanos, é quando ganha uma característica bizarra: Possui cabelos azuis, olhos verdes flamejantes, rosto pálido e no lugar de suas unhas podemos ver folhas de grama.

Há diversas formas de invocá-lo, já que existe a lenda de que ele é o principal precursor dos desejos e ideais mundanos: poder, força e conhecimento.

Muitos dizem que para ter sucesso em suas invocações é necessário ter um objetivo certo e quase sempre é preciso ter como antecessor a invocação de Horthembrak a invocação de um djinn, e só após ter o domínio total sobre o djinn (assim que ele estiver preso em uma garrafa, preparada com sal e algumas ervas) é que é possível ficar seguro na presença de Horthembrak.

Dizem que costuma ser imensamente prestativo e didático com pessoas inteligentes e muito cruel e violento com as mais ignorantes.


O caso dos Irmãos Aragão 

Ninguém sabe até aonde essa história é verdadeira, característica típica de uma lenda urbana. Mesmo assim, bastante interessante.

Manaus 18 de Junho de 2005, a polícia finalmente localiza os três irmãos Aragão, um fato que apesar de muito divulgado pela imprensa ganhou pouca repercussão nacional. Devido à falta de esclarecimentos das autoridades.

Dois dos irmãos foram encontrados mortos, de forma misteriosa, a segunda uma garota que tinha na faixa de dezoito anos, fora encontrada perdida vagando pelas matas, completamente despida. Fora cometida por uma espécie de loucura momentânea e hoje encontra-se sob tratamento psiquiátrico.

As notícias liberadas pela polícia eram absurdas e muito contraditórias. Nunca ninguém soube, de fato, o que havia realmente ocorrido.

Até o ano de 2008, quando uma suposta carta veio aparecer. Na tal carta o irmão mais novo da família Roberval faz uma espécie de reportagem, ele narra um fato, que poderia esclarecer o mistério ocorrido naquela data, mas a polícia nega a veracidade da carta.

Na carta eles relatam a existência de um gravador, os investigadores dizem que este gravador jamais existiu, mas muitos afirmam que ele, ainda hoje, encontra-se sob poder da polícia. A Família não confirma os fatos e desde 2006 não aparecem em público e já deixaram bem claro que jamais voltarão a falar sobre tal assunto.

Não se sabe ao certo como o conteúdo desta carta, que parece uma página do diário de um dos irmãos, chegou à internet, apenas sabemos tratar-se de um relato fascinante.


A Carta

"(Manaus 15 de junho de 2005):

-19h12min
Eu Roberval Aragão dou início ao fato que sem dúvida irá mudar o rumo da humanidade. Eu e meus irmãos estamos a três anos nos preparando para este dia, e hoje iremos mudar o curso da história. Seremos ícones da religião moderna e de toda e qualquer seita ou ordem secreta.

-19h54min
Estamos nos dirigindo a uma cabana, que fica em uma região bem afastada de Manaus, mas especificamente na zona leste, fica logo após o bairro Jorge Teixeira, não sei ao certo o nome da localidade… Reinaldo foi quem tratou de encontrar o local, disse que ali era a localização perfeita para o ritual, tenho esperanças que tudo dê certo.

-20h22min
Estamos presos no trânsito, meu irmão está impaciente, Alicia nossa irmã do meio teve que desligar o celular. Meu pai tá enchendo o saco.

-23h12min
Chegamos! Demorou a beça, mas enfim chegamos… Agora temos que preparar o terreno.

-23h15min
Fui impedido de ajudar no preparo do local, que fique bem claro que meu irmão é um tirano. Acha que sabe de tudo, sendo que quem encontrou a forma de trazê-lo a nosso mundo fui eu. Que fique bem claro que ele acha que sabe como proceder, mas tudo que ele sabe fui eu quem ensinou.

-23h20min
O dia esta perfeito, temos uma linda lua nova o que representa o começo de um novo ciclo, a noite é quente e tudo que aqui for feito não morrerá e sim estará somente partindo em busca de um novo e real conceito.

-23h22min
Desculpa, deixa-me explicar no que consiste o ritual. Hoje iremos trazer a terra o grande Horthembrak, mas antes precisamos invocar um Djinn e por meio dele devemos chamar Horthembrak.

É um processo trabalhoso, mas tentarei explicar… Não temos muito tempo, então não irei esclarecer para vocês quem é Horthembrak ou o que é um Djinn, apenas vou explicar como invoca-los. Só espero que não tentem fazer isso sem o devido preparo, fizemos um longo estudo até chegarmos onde estamos:

Primeiro você tem que ter em mãos todo o material: Carvão preto, uma garrafa de vidro banhada em água com sal e folhas de pinheiro, quatro velas pretas, um livro da bíblia; este tem que também ter uma capa preta, texto do gênesis, um punhado de pó de carvão e não podemos esquecer da bússola. Após ter o material você deve desenhar com a pedra de carvão uma imensa letra “c” no chão, ele tem que estar quase fechando, ele deve ter apenas uma pequena abertura para que o líder do ritual possa entrar. Não esquecendo que esta entrada deve ficar em oposição a Jerusalém, e pelo mapa vejo que fica a sudoeste, não pise jamais na linha, isso traria conseqüências graves. Temos que localizar com exatidão o norte, o sul, o leste e o oeste e em cada ponto colocamos uma vela. Temos que colocar de pó de carvão na base, já que ele simboliza as cinzas. E antes de entramos no circulo devemos contorná-lo dezoito vezes no sentido anti-horário. Queime a página da bíblia Gênesis 1-6 onde fala sobre a criação do homem. Em seguida a pessoa que ficou dentro do circulo deve colocar os pés voltados para o sudoeste, ela deve ajoelhar-se e encostar a testa no chão e chamar pelo Djin do fogo, isto simboliza submissão.

Nos que ficamos fora do circulo principal, ficamos apenas protegidos por um circulo de sal e devemos seguir a invocação. Devemos falar algo em latim:

“FIRMAMENTUM IN MEDIO AQUARUM ET SEPARET AQUAS AB AQUIS, QUAE SUPERIUS SICUT INFERIUS, ET QUAE INFERIUS SICUT QUAE SUPERIU, AD PERPETRANDA MIRACULA REI UNIUS. SOL EJUS PATER EST, LUNA MATER ET VENTUS HANC GESTAVIT IN UTERO SUO, ASCENDIT A TERRA AD COELUM ET RURSUS A COELO IN TERRAN DESCENDIT. EXORCISO TE CREATURA AQUAE, UT SIS MIHI SPECULUM DEI VIVI IN OPERIBUS EJUS, ET FONS VITAE, ET ABLUTIO PECCATORUM. AMEN"

Nem sei o que significa, só sei que estudamos um monte para aprender todos os fonemas, não queria falar errado, meu irmão apenas me disse que não se trata de nada satânico, nem mesmo cristão e sim forças elementais, espíritos da vida. Não acreditamos em Deus ou Diabo, apenas nas forças cósmicas, energias da natureza e nos espíritos guardiões. Acredito que esse lance da bíblia e as referencias a Jerusalém, não passam de mero simbolismo.

-00h32min
-Enfim terminaram a preparação, garanto que se fosse eu, com certeza já teríamos terminado. Eles me chamaram, então, preciso entrar no meu circulo de proteção, mas não largarei meu caderno, muito menos o gravador, quero registrar tudo.

-00h37min
Meu irmão entrou no circulo e esta dando início ao ritual, Alicia pediu-me que parasse de escrever e me concentrasse no rito.

-01h27min
Ele esta parado com a testa no chão, não esta esboçando nenhuma reação, fiquei com medo que estivesse passando mal, há alguns minutos eles soltou uns gemidos esquisitos, como que de gravetos sendo quebrados, não estou com medo, apenas ansioso.

-01h44min
-Incrível, meu irmão está possuído, ele disse se tratar do próprio Horthembrak e não de um Djinn, disse que adoraria que eu escrevesse tudo o que ele falar. Estou me sentindo o homem mais importante do planeta.

O que escreverei agora não são palavras do meu irmão e sim do grande Horthembrak:

Horthembrak : A vida, bem podemos dizer que ela é apenas uma ilusão. Você vive durante anos, mas do que vale? Se você erra, será condenado ao fogo eterno. É assim que pensam os cristãos. Pura intrujice. Não existe inferno ou mundo das trevas, apenas existem dois pólos, duas escolhas e ambos senhores. Se você não agrada um, segue para servir o outro e se você agrada a este outro, como este poderia lhe fazer mal. Pensem bem, o inferno não é um local de tortura e sim uma nova espécie de paraíso, um lugar de regozijo para aqueles que nos agradam.

Eu: O que ocorre quando nossos espíritos ficam na terra atormentando as pessoas o que significa isso?

Horthembrak :( risos) Vocês são muito infantis. Acreditam mesmo que uma moça estuprada bate e atormenta as outras após a morte? Acham mesmo que isso é possível? Se ela estando viva, mal pode defender-se, por que agora depois de morta ela iria desenvolver tal força titânica. Cada alma segue seu rumo, os que ficam são espíritos ilusórios, eles adoram perturbar sua paz, conseguem imitar vozes e até mesmo trejeitos. Tentam através disso entrar em contato com vocês e quando conseguem, eles obtém o livre acesso.

Eu: Mas você não disse que demônios não são criaturas más?

Horthembrak: Não disse isso, demônios são seres inteligentes, muito mais inteligente que vocês, pois desafiaram a própria criação. Não vivemos como humanos. Vocês são como animais de estimação.

-02h54min
Ele disse que para obtermos sucesso e trazermos até nossa realidade, sua principal semente, ele deve fazer sexo com minha irmã, não concordei com isso, isso está passando dos limites, isso é contra a natureza, mas minha irmã concordou e por isso estou aqui fora do quarto aguardando os dois.

-03h15min
-Eles parecem ter terminado, minha irmã esta com uma cara de total insatisfação, não sei por que mas sinto nojo dela.

-03h44min
Eu desculad. As letras estão ilegíveis, não consigo escrever, só escrevo para pedir desculpa, desculpa a meu pai, desculpa a todos. Quero que fique claro que sou inocente, Deus sabe que sou.
Acabei de cometer uma monstruosidade, mas foi necessário, não tive culpa, não era ele.
Meu irmão de uma hora para outra começou a agredir Alicia ele batia violentamente em seu rosto. Tentei evitar, mas não consegui, com apenas um braço ele me atirou do outro lado da sala. Não vi alternativa… eu estava me defendendo e defendendo a vida da minha irmã.
Acertei aquele cano de metal na cabeça dele, entendam foi a única maneira de fazê-lo parar.

-..h..min
Não sei que horas são, meu relógio simplesmente parou, estou sentado no chão, espero que o dia amanheça, acho que assim essas coisas irão embora, meu irmão esta caído, desfalecido no chão. Minha irmã ainda esta desacordada, a sala esta fria, a pouco senti um medo incrível, um medo tão grande que cheguei a vomitar. Não sei o que esta acontecendo, as coisas fugiram do controle. Apenas protejo a mim e minha irmã, dentro do circulo de sal.

-..h…min
Desculpa se a tinta da caneta agora está vermelha. Ainda a pouco a caneta que usava flutuou a minha frente e simplesmente explodiu, como se houvesse uma bomba dentro dela. Não sei por que, mas não consigo parar de escrever. Acho que isso tem um real motivo. Acredito que eu talvez sirva de exemplo. Um péssimo exemplo

-..h..min
Parece maldição… não amanhece, estou com medo, já pensei diversas vezes em clamar pelo Deus dos cristãos, mas não posso fraquejar, tenho que mostrar para esse ser que sou mais forte. Clamei pelos espíritos guardiões.

-..h…min
Agora a pouco ouvi um som horrível. Estou apavorado, é como se houvesse uma multidão gritando e chorando do lado de fora da cabana. Não sei, estou apavorado.

-..h..min
Há três figuras negras paradas me olhando, eles tem olhos vermelhos, tentarei contata-los, direi a eles que estou aqui a seu serviço.

-..h..min
Agora a pouco senti a pior sensação da minha vida, os seres sumiram, ainda a pouco senti como se diversas larvas geladas tentassem subir em meu corpo, elas tentavam entrar em minha boca, era como se este ser tentasse me possuir. Não posso correr, minhas pernas não me obedecem, agora sei como uma pessoa paralítica se sente. Percebi que posso conter esses espíritos asquerosos, basta eu prender a respiração e eles não entram em mim.

-..h..min
Estou conseguindo, prendi a respiração por diversas vezes, eles se foram. Me deixaram em paz. Venci!

-..h…min
Ouço passos, enfim alguém veio em nosso socorro, quem sabe posso até salvar meu irmão…"

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Após três dias de busca foram encontrados os corpos dos dois irmãos. Reinaldo estava deitado na sala, com o corpo em forma de cruz e sobre seus pés havia um crânio de cachorro. Roberval foi encontrado deitado sobre os joelhos, sua face estava roxa, ele morrera de asfixia, a policia disse se tratar de suicídio. Uma forma meio exótica de se matar. Alicia fora encontrada nua correndo pela mata. Estava num avançado estado de desidratação.

Até hoje ninguém sabe que fim teve o caso, ninguém sabe se Alicia realmente ficou grávida ou teve sucesso com aquela invocação.

Este caso permanece um mistério, muitos o escarnecem, dizem tratar-se apenas de um boato ou mera estória. Já outras pessoas usam este caso como exemplo para outros jovens que um dia possam vir a ter este tipo de curiosidade, essa mesma curiosidade que você está tendo agora.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/11/a-invocacao-de-horthembrak.html