terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Charles Dickens - Paixões Violentas


Charles Dickens – dizia um periódico fluminense do século XIX –, célebre romancista inglês, inspirou a muitas de suas leitoras paixões violentas. E só podemos atribuir tais paixões arrebatadoras – paixões de vida e morte - ao imenso poder de sedução que irradiava não da figura do escritor, mas de seus contos e romances, publicados em jornais ingleses, na forma de folhetim.


Vejamos dois casos interessantes.

O primeiro narra-o o Diário de Notícias, edição de 12 de agosto de 1870:

“Uma mulher de vida escandalosa, que tinha dirigido ao romancista vinte cartas apaixonadas, não tendo obtido resposta, tentou apunhalá-lo à saída de um teatro. Para arredá-la das testemunhas dessa tentativa, salvando-a assim, Dickens recolheu-a em seu carro, e mandou levá-la para sua própria casa, até pô-la ao abrigo de todas as pesquisas”.

O jornal “A Constituição”, em edição de 1º de setembro do mesmo ano, reproduziu a seguinte notícia do “Parlament”:


“Em consequência de um trabalho excessivo, que lhe causara uma singular exaltação nas faculdades inventivas, Dickens caiu em um estado de prostração notável.

Não podia dormir mais de duas horas, nem conservar-se mais de cinco minutos na mesma posição.

Só conciliava o sono alto dia, depois de percorrer Londres das 11 horas ou meia-noite até quase de madrugada.

Nas primeiras noites de sua peregrinação, notou que uma senhora, de aparência honesta, aparecia-lhe nas horas em que as senhoras de vida regular estão recolhidas em suas casas. Depois encontrou-a mais duma vez na mesma noite.

Toda vez que a senhora encontrava Dickens, encaminhava-se para ele como se quisesse falar-lhe; mas de repente mudava de rumo, talvez envergonhada ou amedrontada.

Afinal aproximou-se dele com resolução, e acharam-se defronte doutro.

Ela lhe disse:

– Charles Dickens, o Sr. fez muito mal... Não tenho mais descanso... Olhe para mim, para ver se se lembra quem eu sou... Mereço uma lembrança de sua parte... e juro-lhe que nunca mais há de me ver.

A mulher fugiu; Dickens acompanhou-a de longe, e soube que era casada com um coronel inglês, que residia nas Índias.

Nunca mais a encontrou nas ruas.

Quatro dias e quatro noites se passaram assim.

No quinto dia Dickens recebeu um retrato em um quadro de alto valor.

Preso ao retrato acompanhava uma medalha de marfim e ébano que continha uma basta trança de cabelos pretos.

Nessa medalha havia também um bilhete, com cinco linhas. O bilhete dizia:

 Amei-te loucamente. Mas o meu amor era criminoso, porque pertencia a outro mundo, onde poderei, sem trair ninguém, pensar em ti. Lastima-me, pois.

O bilhete era assinado por: 'A mulher de umas das noites passadas'.

Dickens correu à casa dessa mulher. Ao chegar ali, soube que ela tinha acabado de expirar, apunhalando-se com um estilete!"

Dickens, cuja pena era mágica, quase sobrenatural, parecia mesmo mexer a fundo no coração das pessoas. Uma delas, sentindo-se desprezada pelo escritor, tentou matá-lo, mas ele, humanamente, a livrou da forca; a outra, não pôde Dickens salvar da morte, posto que a dama apaixonada, vendo a impossibilidade de seu amor, de si fez o próprio carrasco, no firme desígnio de amá-lo, desimpedidamente, do além.

Parece que tais trágicos incidentes ocorreram em algum momento não muito distante da morte do escritor, ocorrida em 9 de junho de 1870. Dickens tinha 58 anos.

Fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2014/01/charles-dickens-paixoes-violentas.html

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Campo De Batalha - Stephen King

A voz do recepcionista deteve-o a meio caminho do elevador e Renshaw voltou-se, impaciente, passando a maleta de vôo de uma mão para outra. O envelope em seu bolso, cheio de notas de vinte e cinqüenta dólares, estalou audivelmente. O trabalho correra bom e o pagamento fora excelente ― mesmo depois da redução dos 15% de comissão cobrados pela Organização como taxa de agenciamento. Agora, tudo que ele queria era um chuveiro quente, um gim-tônica e dormir. 

― O que é? 

― Uma encomenda, senhor. Quer assinar o recibo, por favor? 

Renshaw assinou e fitou pensativamente o pacote retangular. Seu nome e endereço estavam escritos na etiqueta gomada, numa caligrafia inclinada que lhe parecia familiar. 

Balançou o pacote sobre a superfície imitando mármore do balcão e algo produziu um leve ruído metálico lá dentro. 

― Quer que eu mande levar lá em cima, Sr. Renshaw? 

― Não. Está bem assim. 

O pacote tinha cerca de meio metro de comprimento e se ajustava um tanto desajeitadamente sob seu braço. Renshaw deixou-o sobre o espesso tapete que cobria o chão do elevador e girou a sua chave na abertura correspondente ao apartamento de cobertura, que ficava acima dos botões dos andares normais. O elevador subiu, silencioso e macio. Renshaw fechou os olhos e reviu o trabalho na tela escura de sua mente. 

Primeiro, como sempre, um telefonema de Cal Bates: 

― Está disponível, Johnny? 

Ele estava disponível duas vezes por ano, preço mínimo dez mil dólares. Era muito competente, muito confiável, mas o que seus clientes realmente pagavam era pelo infalível talento de predador. John Renshaw era um gavião humano, condicionado tanto pela genética como pelo meio ambiente para desempenhar de modo soberbo duas funções: matar e sobreviver. 

Depois do telefonema de Cal Bates, o envelope de papel pardo aparecera na caixa postal de Renshaw. Um nome, um endereço, uma fotografia. Tudo foi guardado na memória; depois, as cinzas do envelope e seu conteúdo foram para a lixeira. 

Desta vez, o resto fora o de um pálido homem de negócios de Miamì, chamado Hans Morris, fundador e proprietário da Fábrica de Brinquedos Morris. Alguém desejava tirar Morris do caminho e procurara a Organização. A Organização, na pessoa de Calvin Bates, falara com John Renshaw. Bum! E favor não enviar flores. 

As portas do elevador se abriram e ele pegou o pacote do chão, saindo para o hall. 

Destrancou o apartamento e entrou. Àquela hora do dia, pouco depois das três da tarde, a espaçosa sala de visitas estava banhada pela luz do sol de abril. Renshaw parou um instante, saboreando-a. Em seguida, colocou o pacote sobre a mesinha ao lado da porta e foi ao terraço. 

Abriu a porta corrediça de vidro e saiu para o ar livre. Estava frio e o vento penetrava através de seu sobretudo fino. Não obstante, parou um momento, olhando a cidade da mesma maneira que um general observaria um país capturado. O tráfego percorria as ruas como besouros. Ao longe, quase escondida pela névoa da tarde, a Ponte da Baía faiscava como a miragem de um louco. A leste, quase perdidos por detrás dos arranha-céus do centro da cidade, os cortiços atulhados de gente, com suas florestas de antenas de TV. Era melhor aqui. Melhor que nas sarjetas. 

Renshaw voltou à sala, fechou a porta de vidro e foi ao banheiro para um prolongado banho de chuveiro quente. 

Quarenta minutos depois, quando se sentou para fitar o pacote com um drinque na mão, as sombras haviam avançado até a metade do tapete cor de vinho e o melhor da tarde já se fora. 

Era uma bomba. 

Claro que não era, mas a gente procedia como se fosse. Por esse motivo ele se mantivera ereto e bem nutrido, enquanto outros haviam ido para aquela grande aglomeração de desempregados lá no céu. 

Se era uma bomba, não tinha relógio. Totalmente silenciosa; impassível e enigmática. 

De todo modo, o explosivo plástico era mais usado atualmente. Menos temperamental que as molas de relógio fabricadas pela Westclox e Big Ben. 

Renshaw olhou para o carimbo do correio. Miami, 5 de abril. Há cinco dias. Portanto, a bomba não era de tempo. Nesse caso, teria explodido no cofre do hotel. 

Miami. Sim. E aquela caligrafia inclinada. Havia uma fotografia emoldurada sobre a mesa do pálido homem de negócios. A foto era de uma velha ainda mais pálida, usando um xale. A dedicatória na parte inferior dizia: "Os melhores votos da garota de idéias brilhantes ― Mamãe." 

Que tipo de idéia brilhante é esta, Mamãe? Uma armadilha assassina feita em casa? 

Renshaw olhou o pacote com total concentração, imóvel, as mãos cruzadas. Indagações estranhas, tais como a maneira pela qual a garota de idéias brilhantes de Morris descobrira seu endereço, não lhe ocorreram. Ficavam para mais tarde, para Cal Baker. 

Agora, não importavam. 

Com um movimento repentino, quase distraído, tirou da carteira um pequeno calendário de plástico e o inseriu habilmente sob o barbante grosso que dava várias voltas sobre o papel-pardo do embrulho. Enfiou-o por baixo da fita gomada que prendia uma extremidade do papel. A ponta do papel se soltou, relaxando-se de encontro ao barbante. 

Renshaw aguardou algum tempo, observando. Depois, debruçou-se para perto do pacote e cheirou. Papelão, papel, barbante. Nada mais. Andou em volta do embrulho, agachouse com facilidade e repetiu o processo. A penumbra invadia o apartamento com dedos cinzentos e sombrios. 

Uma das pontas do papel escapou do barbante, deixando à mostra uma caixa de cor verde fosca. Metal. Com dobradiças. Renshaw tirou um canivete do bolso e cortou o barbante. Este caiu e alguns movimentos com a ponta da lâmina abriram o papel, revelando a caixa. 

Era verde com letras pretas. Na frente, pintadas em branco, estavam as palavras: BAÚ DO SOLDADO JOE. Logo abaixo: 20 Infantes, 10 Helicópteros, 2 Artilheiros c/ Fuzis Automáticos, 2 Atiradores de Bazuca, 2 Padioleiros, 4 Jipes. Mais abaixo: Decalque de Bandeira. Ainda mais abaixo, no canto: Fábrica de Brinquedos Morris, Miami, Flórida. 

Renshaw estendeu a mão para tocar na caixa, mas tornou a encolhê-la. Algo se mexeu dentro do baú. 

Renshaw levantou-se sem pressa e recuou através da sala, na direção da cozinha e do corredor. Acendeu as luzes. 

O baú militar do tipo usado no Vietnã estava balançando, fazendo chocalhar o papel pardo por baixo dele. De repente, ultrapassou a posição de equilíbrio e caiu no tapete com um baque surdo, ficando em pé sobre uma das extremidades. A tampa com dobradiças se entreabriu, uma fresta de cerca de cinco centímetros. 

Pequenos soldados de infantaria, com três centímetros e meio de altura, começaram a rastejar para o tapete. Renshaw os observava sem pestanejar. Sua mente não fazia qualquer esforço para enfrentar o aspecto real ou irreal do que ele via ― só se preocupava com as possíveis conseqüências para sua sobrevivência. 

Os soldados usavam minúsculos uniformes de combate, capacetes e mochilas. Traziam pequenos fuzis a tiracolo. Dois deles olharam rapidamente através da sala na direção de Renshaw. Seus olhos, não maiores que pontas de lápis, brilhavam. 

Cinco, dez, doze, todos os vinte. Um deles comandava os outros por meio de gestos. 

Alinharam-se ao longo da fresta que a queda abrira na tampa da caixa metálica e começaram a empurrar. A fresta começou a aumentar. 

Renshaw pegou uma das grandes almofadas do sofá e se encaminhou para eles. O oficial em comando virou-se e gesticulou. Os outros giraram e empunharam os fuzis. 

Renshaw ouviu leves ruídos, quase como estalidos, e sentiu-se repentinamente picado por abelhas. 

Golpeou com a almofada, que atingiu os soldadinhos, jogando-os no tapete. Então, acertou na caixa, escancarando-a. Como insetos, produzindo um zumbido agudo, uma esquadrilha de helicópteros em miniatura, pintados de verde-oliva, levantou vôo da caixa 

Leves sons ― puft! puft! ― chegaram aos ouvidos de Renshaw e este viu clarões de disparos, pequenos como cabeças de alfinete, saindo das portas abertas dos helicópteros. 

Pontas de agulha picaram-lhe a barriga, o braço direito, o lado do pescoço. Levantou a mão e pegou um dos helicópteros ― uma repentina dor nos dedos; sangue começando a brotar. As pás das hélices tinham-lhe cortado a carne até os ossos, em lanhos diagonais que sangravam. Os demais aparelhos voaram para fora de seu alcance, rodeando-o como libélulas. O helicóptero atingido caiu no tapete e permaneceu imóvel. 

Uma súbita dor aguda no pé fez Renshaw gritar. Um dos infantes estava em pé no seu sapato, enfiando-lhe a baioneta no pé. O rostinho minúsculo olhava para cima, sorridente. 

Renshaw desferiu-lhe um pontapé e o pequeno corpo voou através da sala, espatifando-se contra a parede. Não deixou sangue, mas uma viscosa mancha vermelha. Ocorreu uma pequena explosão e uma dor cruciante o atingiu na coxa. Um dos atiradores de bazuca saíra do baú. Um tênue filete de fumaça se erguia preguiçosamente da boca da arma. Renshaw baixou os olhos e viu um buraco negro e fumegante nas calças, do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos. A pele por baixo estava chamuscada. 

O pequeno filho de uma puta atirou em mim! 

Renshaw virou-se e correu para o corredor, entrando em seu quarto. Um dos helicópteros passou-lhe rente à bochecha, as hélices zumbindo. O leve matraquear de um fuzil automático. Depois, afastou-se. 

O revólver sob o travesseiro de Renshaw era um 44 Magnum, com potência bastante para abrir um buraco do tamanho de dois punhos cerrados em qualquer coisa que acertasse. Renshaw virou-se, empunhando a arma com ambas as mãos. Compreendeu friamente que estaria atirando contra um alvo móvel não muito maior que uma lâmpada voadora. 

Dois dos helicópteros entraram zumbindo no quarto. Sentado na cama, Renshaw disparou uma vez. Um dos helicóteros explodiu, pulverizado. Com este, são dois, pensou Renshaw. Apontou para o segundo... apertou o gatilho... 

Emperrou! Diabo, emperrou! 

O helicóptero mergulhou em direção a ele num súbito arco mortífero, as hélices zumbindo com uma velocidade incrível. Renshaw viu de relance um dos atiradores de fuzil automático agachado perto da porta do aparelho, disparando a arma em rajadas curtas e letais. Então, atirou-se ao chão e rolou. 

Meus olhos! O miserável apontava contra os meus olhos! 

Parou de rolar deitado de costas junto à parede oposta, empunhando o revólver à altura do peito. Mas o helicóptero se afastava. Deu a impressão de parar um instante no ar e inclinar-se em reconhecimento ao superior poder de fogo de Renshaw. Depois, desapareceu na direção da sala de visitas. 

Renshaw levantou-se, fazendo uma careta quando apoiou o peso do corpo na perna ferida, que sangrava abundantemente. E por que não? refletiu ele sombriamente. Não é todo mundo que se vê atingido à queima-roupa por uma bazuca e vive para contar a estória. 

Então, Mamãe era a garota das idéias brilhantes, hem? Era tudo isso e ainda mais. 

Renshaw tirou a fronha de um travesseiro e rasgou-a para improvisar uma atadura. 

Depois, pegou o espelho de barbear-se que estava em cima da cômoda e foi à porta do corredor. Ajoelhando-se, empurrou o espelho pelo tapete, formando um ângulo, e espiou. 

Com os diabos! Os soldados estavam acampando perto do baú. Os homenzinhos em miniatura corriam de um lado para outro, armando barracas. Jipes com dois centímetros de altura rodavam com ar imponente. Um padioleiro cuidava do soldado que Renshaw atingira com o pontapé. Os oito helicópteros restantes davam cobertura aérea ao acampamento, voando em círculos à altura da mesinha de centro. 

De repente, eles perceberam o espelho e três dos infantes se apoiaram sobre um joelho e começaram a atirar. Segundos depois, o espelho se quebrou em quatro pedaços. 

Está bem, está bem, então. 

Renshaw voltou à cômoda e pegou a pesada caixa de miudezas de mogno que Linda lhe dera no Natal. Sopesou-a, meneou afirmativamente a cabeça, foi até a porta e saiu de repente para o corredor. Contraiu-se e atirou a caixa como um lançador de beisebol. A caixa descreveu uma trajetória certeira e esmagou soldadinhos como uma bola de boliche derrubando os pinos. Um dos jipes capotou duas vezes. Renshaw avançou até a porta da sala, mirou num dos soldados caídos e atirou. 

Vários dos outros se tinham recobrado. Alguns estavam ajoelhados e atiravam formalmente. Outros procuraram abrigo. Ainda outros voltaram ao interior do baú. 

As picadas de abelha começaram a atingir as pernas e torso de Renshaw, mas nenhuma delas o pegou acima da caixa torácica. Talvez a distância fosse demasiada. Não importava; ele não estava disposto a se deixar rechaçar. Agora, era pra valer. 

Errou o tiro seguinte ― eles eram tão miudinhos ― mas o outro derrubou um soldado, partindo-o em pedaços. 

Os helicópteros zumbiam ferozmente em direção a ele. Então, as minúsculas balas começaram a atingi-lo no rosto, acima e abaixo dos olhos. Acertou o helicóptero da frente, depois o segundo. Pontadas de dor turvaram-lhe os olhos. 

Os seis helicópteros remanescentes se afastaram em dois grupos de três. O rosto de Renshaw estava molhado de sangue e ele o enxugou com o antebraço. Estava pronto para recomeçar a atirar, mas fez uma pausa. Os soldados que haviam recuado para o interior do baú estavam puxando algo para fora. Algo que parecia... 

Houve um silvo cegante de fogo amarelo e uma súbita explosão de madeira e reboco produziu-se na parede à esquerda de Renshaw... um lançador de foguetes! 

Renshaw disparou um tiro apressado contra a arma e errou. Girando nos calcanhares, correu para o banheiro na extremidade oposta do corredor. Bateu a porta e trancou-a. No espelho do banheiro, um índio o encarou com olhos atônitos e amedrontados, um índio enlouquecido pela batalha, com filetes de tinta vermelha escorrendo de buracos menores que grãos de pimenta. Uma tira de pele rasgada pendia de uma bochecha. Havia um fundo vergão em seu pescoço. 

Estou perdendo! 

Passou a mão trêmula pelos cabelos. A porta da frente estava isolada. O mesmo ocorria com o telefone e com a extensão na cozinha. Eles tinham um maldito lançador de foguetes e um impacto direto lhe arrancaria a cabeça. 

Diabo! Aquilo nem mesmo constava da lista pintada na caixa! 

Começou a inalar profundamente o ar, mas soltou-o de repente num grunhido quando surgiu na porta um buraco do tamanho de um punho, acompanhado de uma explosão que lançou longe lascas de madeira chamuscada. Pequenas labaredas brilharam brevemente nas bordas irregulares do buraco e Renshaw viu o forte relâmpago quando eles lançaram novo foguete. Outro buraco e mais madeira voou, lançando lascas em brasa no tapete do banheiro. Ele apagou as brasas com os pés e dois helicópteros zumbiram raivosamente através do buraco. Minúsculas balas de fuzil automático costuraram-lhe o peito. 

Com um sibilante gemido de fúria, Renshaw bateu em um deles com a mão nua, sofrendo uma série de cortes profundos na palma da mão. Em repentina e desesperada improvisação, atacou o helicóptero com uma pesada toalha de banho. O aparelho caiu no chão, ainda funcionando, e Renshaw o pisoteou até estraçalhá-lo. Sua respiração era arquejante, ruidosa. O sangue caiu num dos olhos, quente e fazendo arder. Ele o limpou com as costas da mão. 

Aí está, com os diabos! Aí está. Isto os fará pensar. 

Na verdade, deu a impressão de que eles tinham parado para pensar. Não houve movimento durante quinze minutos. Renshaw sentou-se na beirada da banheira, pensando febrilmente. Tinha que haver uma escapatória daquele beco sem saída. Tinha que haver. Se ao menos existisse um modo de flanqueá-los... 

Virou de repente a cabeça e olhou para a pequena janela acima da banheira. Existia um modo. Claro que existia. 

Seu olhar desceu até a lata de fluido de isqueiro em cima do armário de remédios. 

Estava estendendo a mão para pegá-la quando escutou o barulho. 

Virou-se depressa, levantando o Magnum... mas era apenas um pedacinho de papel enfiado por baixo da porta. Renshaw notou sombriamente que a fresta sob a porta era pequena demais para que até mesmo um deles conseguisse passar. 

No papel estava escrito, com letra muito miúda: Renda-se 

Renshaw sorriu com ar sinistro e guardou o fluido de isqueiro no bolso do peito. 

Encontrando um coto de lápis, escreveu a resposta no pedacinho de papel e o empurrou por baixo da porta. A resposta era: VÃO À MERDA 

Seguiu-se uma súbita e cegante barragem de foguetes e Renshaw recuou. Os foguetes descreviam trajetórias curvas, entrando pelo buraco na porta, e explodiam contra os azulejos azul-claros acima do cabide de toalhas, transformando a elegante parede num panorama lunar em miniatura. Renshaw cobriu os olhos com a mão para proteger-se dos estilhaços de azulejo e reboco que voavam para todos os lados. Sua camisa apresentava buracos fumegantes e suas costas ficaram pipocadas. 

Quando a barragem cessou, Renshaw entrou em ação. Subiu na beirada da banheira e abriu a janela corrediça. Estrelas frias piscavam para ele. Era uma janela estreita, com um estreito ressalto horizontal pelo lado externo do prédio. Mas não havia tempo para pensar nisso. 

Renshaw içou-se para a janela. O ar frio castigou-lhe o rosto e o pescoço lacerados como uma mão espalmada. Estava inclinado sobre o ponto de equilíbrio das mãos, olhando diretamente para baixo. Quarenta andares de altura. Dali, a rua parecia mais estreita que os trilhos de uma ferrovia de brinquedo. As luzes brilhantes e cintilantes da cidade pareciam faiscar loucamente, como pedras preciosas jogadas a esmo. 

Com a agilidade de ginasta bem treinado, Renshaw ergueu os joelhos até apoiá-los no peitoril da janela. Sim, se um daqueles pequenos helicópteros entrasse agora pelo buraco na porta, um tiro no traseiro seria o bastante para que ele caísse verticalmente, gritando através do espaço. 

Mas nenhum entrou. 

Renshaw torceu o corpo, lançou uma perna para fora e esticou a mão para o ressalto superior, segurando-o com firmeza. Um segundo depois, estava em pé no ressalto exterior à altura do peitoril. 

Evitando deliberadamente pensar na queda horrível sob seus calcanhares ou no que aconteceria se um dos helicópteros saísse para persegui-lo, Renshaw esgueirou-se em direção à esquina do prédio. 

Cinco metros... três... Pronto! Parou, o peito comprimido de encontro à parede, as mãos espalmadas sobre a superfície áspera. Podia sentir a lata de fluido de isqueiro no bolso do peito e o peso do Magnum enfiado na cintura das calças. 

Agora, contornar a maldita esquina. 

Suavemente, ele deslizou um pé em torno da esquina e passou o peso do corpo para ele. 

Agora, o ângulo reto estava comprimido como o gume de uma navalha contra seu tórax e abdome. Na pedra áspera em frente a seus olhos havia uma mancha de excremento de aves. Cristo! ― refletiu ele loucamente. ― Eu não sabia que voavam tão alto. 

Seu pé esquerdo escorregou. 

Por um instante incrível, que lhe pareceu eterno, Renshaw vacilou na beirada, o braço direito remando doidamente para recuperar o equilíbrio. Então, agarrou os dois lados do prédio num abraço de amante, o rosto espremido contra a quina dura, a respiração trêmula e ofegante. 

Pouco a pouco, fez o outro pé contornar a esquina. 

A nove metros de distância, projetava-se o terraço de sua sala de visitas. 

Renshaw chegou silenciosamente até lá, respirando de leve. Por duas vezes foi obrigado a parar quando fortes rajadas de vento ameaçaram arrancá-lo do ressalto. 

Então, atingiu o terraço, agarrando-se às grades de ferro. 

Pulou-as sem fazer ruído. Deixara as cortinas meio abertas por dentro da porta corrediça de vidro e agora espiou cautelosamente para o interior da sala. Eles estavam exatamente como ele queria ― de costas. 

Quatro soldados e um helicóptero tinham ficado de guarda ao baú. O resto estaria em frente à porta do banheiro, com o lançador de foguetes. 

Muito bem. Invadir como a polícia, exterminar os que estavam perto do baú e fugir pela porta da frente. Então, um táxi até o aeroporto e um vôo direto até Miami, para encontrar a garota de idéias brilhantes de Morris. Refletiu que gostaria de queimar a cara dela com um lança-chamas. Seria justiça poética. 

Tirou a camisa e rasgou uma comprida tira da manga. Largou o resto, que lhe caiu aos pés, e mordeu a ponta de plástico da lata de fluido de isqueiro. Enfiou uma ponta do trapo na lata, retirou-o e depois enfiou a outra ponta, empurrando o pano até que restavam apenas quinze centímetros de tecido embebido em fluido fora da lata. 

Pegou o isqueiro, respirou fundo e o acendeu. Levou a chama ao trapo e, quando este se inflamou, abriu violentamente a porta de vidro e mergulhou para dentro da sala. 

O helicóptero reagiu imediatamente, dando um vôo rasante suicida contra Renshaw enquanto este rastejava pelo tapete, largando respingos de fogo líquido. Renshaw golpeou-o com o braço, não se importando com o choque de dor quando as lâminas lhe rasgaram a carne. 

Os pequenos infantes fugiram para o interior do baú. 

Depois disso, tudo aconteceu depressa. 

Renshaw jogou a lata de fluido de isqueiro. A lata se incendiou, transformando-se numa bola de fogo. Logo em seguida, ele recuou, correndo em direção à porta da frente. 

Jamais soube o que o atingiu. 

Foi como o baque de um cofre de aço caindo de uma altura respeitável. Só que aquele baque sacudiu todo o arranha-céu de apartamentos, vibrando pela estrutura de aço. 

A porta da frente do apartamento de cobertura voou das dobradiças, chocando-se com a parede oposta do hall. 

Um casal que caminhava de mãos dadas na calçada olhou para cima a tempo de ver um grande relâmpago branco, como se uma centena de flashes fotográficos fossem disparados simultaneamente. 

― Alguém causou um curto-circuito ― disse o homem. ― Creio que... 

― O que é aquilo? ― perguntou a garota. 

Algo caía preguiçosamente na direção deles; o homem estendeu a mão e pegou no ar. 

― Cristo! É a camisa de alguém. Cheia de furinhos. E de sangue, também. 

― Isso não me agrada ― disse a moça, nervosa. ― Chame um táxi, está bem, Ralph? Se aconteceu alguma coisa lá em cima, teremos que falar com a polícia e meus pais não sabem que saí com você. 

― Claro. 

O homem olhou em volta, avistou um táxi e assoviou para chamá-lo. As luzes de freio se acenderam e o casal correu para o veículo. 

Atrás deles, sem ser visto, um pequeno pedaço de papel desceu lentamente do alto do prédio e caiu perto dos restos da camisa de John Renshaw. Trazia escrito numa caligrafia inclinada: 

Ei, garotada! Um brinde especial neste baú do Vietnã! 

(Promoção por prazo limitado) 

Lançador de Foguetes 

20 Mísseis terra-ar "Twister" 

1 Arma Termonuclear em Escala.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Bruxaria


Palha no fogo, e ele sobe, aumenta, esquenta meus pés. Remexo e giro o líquido, no outro sentido, e as bolhas tornam-se lentas, a estourar preguiçosas. Tornam-se grossas, azuis, e índigo também é a fumaça que agora se desprende, em espirais loucas, alucinadas, deixando a visão turvada, visão que não é minha, inflando o lugar em êxtase. Uma bolha estoura, minha pele sua, tremendo de gozo pelas carícias da fumaça, ansiando as delícias cantadas em seu aroma. Mas espero, me contenho, ou outras vontades o fazem, pois já não sou eu, mas instrumento. Meu braço treme, lento, envolvido pelas finas brumas, que devagar giram o líquido, perdido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.


Então, sem aviso, anúncio ou sinal, a fumaça muda, descolore para um negro sepulcral, escurece a sala. Tudo se apaga, as paredes, o fogo, os sons. Sou apenas eu, eu e o líquido, que gira. Já não há bolhas, mas uma camada lisa, fina, frágil qual espelho, a deslindar certeiro uma cena ao luar. Sim, vejo a Lua, a mãe, brilhando entre os prédios cinzentos, brigando com a luz dos postes um direito a iluminar. E numa viela escura, fedendo a sangue e urina – sim eu sinto – vejo uma menina, miúda, vítima do desejo do homem que a segura, que rasga suas vestes e procura seu corpo. Sinto o gosto de sangue na boca da menina, vejo o sangue escorrer de seu queixo. Ela grita, não há som mas a ouço, ela grita, mas só eu a ouço. Os braços fortes lutam contra o corpo frágil, ela chora, ele ri, animal afoito, ri e se esfrega nojento. As sombras a minha volta se agitam – ou seriam as brumas? – e sinto o cheiro de morte. Morte. A menina grita, o homem ri, ri satisfeito e finalmente a deixa. A garota morre, e a cena treme, turva e se desfaz, o passado é frágil na superfície de um caldeirão. Agito o líquido, ansiosa. E sinto a angústia que a menina deve ter vivido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.

A sala escurece mais, se é possível. Vejo minha mão erguer o punhal, terrível, e estendo o outro braço. A pele chora o sangue que derrama, avermelhando o líquido. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O líquido desprende rubra fumaça, que inflama instintos assassinos, instintos tentadores, mas que renego. Ouço a bruma exigir mais sangue, meu corpo sua de raiva e ódio, minha mão ferida treme por vingança. Ouço a bruma que dança, mas nada faço, senhora que já não sou de mim. Enfaixo o braço ferido, e vejo nova cena na superfície carmesim, e na cena vejo um homem, o mesmo de antes, dormindo tranqüilo seu sono impune. Vejo minha mão – já não a minha – buscar um pequeno estojo num bolso do vestido. Sinto uma tontura. Dentro do estojo, um fio de cabelo, da mesma cor escura dos cabelos da menina, morta há sete dias, naquela noite fria, nas sombras da rua. O fio brilha na fumaça rubra, o cabelo da vítima. E dói meu braço. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O homem contrai o rosto, como se esperasse. E jogo o fio na cena rubra, e o líquido borbulha, e borbulha e borbulha. Mexo o caldeirão. Ouço enfim, claro, um grito, de dor acometido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.

Com força eu giro, e a cada volta o grito aumenta, a dor aumenta, o desespero vem. Sinto o medo, o medo dele, o medo que sente, eu sinto também. Agora sou ele, ele eu, sinto os lençóis ásperos de sua cama, e o suor frio de seu corpo. O grito acaba, morre em minha garganta, e acordo assustada, tremendo ainda o sonho que tive. Ouço, ouço claro, um barulho à minha janela, e vejo a Lua, e sinto medo. Então, no vidro refletido, vejo meu rosto, o rosto dele, o pânico crescendo. Pois vejo, no reflexo, uma sombra se erguendo, atrás de mim, a sombra de uma menina, pálida. Ela me olha, me odeia, e eu sequer tenho coragem de voltar meu rosto. É ela, descubro, é ela, a menina da noite escura! A menina que feri, que invadi e abandonei, é ela, como pode? É ela! Eu a vejo andar, no reflexo da janela, devagar, sair das sombras à passos leves – não ouço passos, mas o roçar de tecido. Ela voltou, voltou pelo crime cometido, veio cobrar o sangue que lhe derramei. Sinto o colchão tornar-se morno, molhando minhas pernas e o lençol, encharcando a cama com urina. Ela estende o braço, vejo no reflexo, em minha direção. Desesperada, eu grito: Não!, e  me viro finalmente. A dor é tremenda, o desespero, maior! Vejo o terror nunca antes visto, e ouço o grito que grito, terrível, perfurando meus ouvidos. E vejo enfim minhas mãos, minhas mãos que giram, giram o líquido, de tom verde agora, como era no início. E vejo as brumas se dispersarem, como se ali nunca estivessem, deixando a sala, o caldeirão, a mim. Sinto o cansaço pelo encantamento proferido, volto a ser eu, eu mesma, eu bruxa. E vejo minha mão que teima em girar o caldeirão.  A saudade da filha é menor, o culpado foi punido. O líquido gira, e ainda giram meus sentidos.

Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

Brincando com o Desconhecido


Sexta-feira, 23h50min. Acenderam algumas velas vermelhas pelos cantos da sala, sete amigos sentados formando um círculo e, no centro deles, uma tábua contendo todos os algarismos, todos os números de 0 a 9, um SIM e um NÃO. Temerosos, mas excitados com o que poderia acontecer, olham um na face do outro. Com um sinal de concordância dado por Michel, o mais velho entre eles, Rafael colocou sua mão sobre o copo virgem que se encontrava com a boca para baixo sobre a tábua: 


   -Tem alguém aí? Tem alguém aí?

   - Nada, nenhum movimento do copo, apenas uma tremedeira causada pela mão do jovem Rafael. Todos olhavam em volta, sentindo um leve calafrio que lhe percorriam a espinha. Um leve vento frio entrou janela adentro. Núbia, a única garota do grupo, pediu para pararem, mas foi alvo das chacotas de Michel:

   - Sabia que não deveríamos trazer uma mulher com a gente!

   - Está com medinho?

   - Corre para debaixo da saia da mamãe e deixe que os homens continuem aqui.

   Núbia abaixou sua cabeça, encobrindo a vergonha, mas não se levantou. Na verdade, todos ali estavam com medo, mas nada diziam temerante às gozações de Michel. Sob a ordem dele, Rafael voltou a pôr a mão sobre o copo e novamente questionar:

   - Tem alguém aí? Tem alguém aí?

   A janela bate quase derrubando a parede; um vento forte e gélido corre por entre a sala como se em círculos; as luzes piscam. Núbia foi tomada por um desespero. Chorava e, aos gritos, pedia para pararem com aquilo, mas não foi ouvida. Rafael, também amedrontado, tentou tirar a mão do copo, mas foi impedido pelas mãos de Michel:

   - Vai, continua! Continua!

   Núbia se levantou aos prantos e correu para a cozinha. Seu pavor estava totalmente fora de controle. Rafael, ainda obedecendo ao amigo, continuou:

   - Tem alguém aí?

   Antes que perguntasse novamente, o copo se moveu: SIM. Todos ficaram paralisados. As mãos trêmulas de Rafael já não conseguiam mais segurar o copo. Todos os seis se juntaram ainda mais, um se se encostando ao outro, espremidos em seu medo, mas atentos à tábua. Rafael, em soluços, voltou novamente a questionar:

   - Quem é você? Quem é você?

   O copo voltou a mexer indo em direção aos algarismos. Tomados pelo medo e pela curiosidade, eles fixaram os olhos na tábua, enquanto o copo continuava a se mover: E, U, P, E, D, I, P, A, R, A, P, A, R, A, R, E, M, Michel repetiu a frase soletrada:

   - Eu pedi para pararem...

   Todos olharam em direção à cozinha, para onde Núbia teria corrido, mas se depararam com a jovem em pé atrás deles, segurando uma faca de cozinha nas mãos. Com um só golpe, cortou a garganta de Michel, jorrando sangue em todos os outros. Rafael se levantou em direção da amiga tentando segurá-la, mas a força da jovem, naquele momento, era incrível. Atirou Rafael na parede e lhe estocou a faca em sua barriga. Os outros se agruparam no canto da sala, aos berros. Queriam correr pra fora, mas Núbia estava posicionada na única passagem possível.

    Os berros que vinham da casa chamaram a atenção dos vizinhos. Um deles, mais do que depressa, chamou a polícia, que chegaram 30 minutos depois. Quando já não se ouvia mais nada vindo de dentro da casa, uma multidão se formou defronte à residência. Com o aparecimento da polícia, todos queriam saber o que aconteceu. Um dos policiais abriu a porta da sala com os pés. Deparou-se com Núbia sentada no sofá, coberta por pedaços de corpos e sangue, como se em estado de catatonia apenas repetia a frase:

    - Eu pedi para eles pararem! Eu pedi para eles pararem! Eu pedi...

Fonte: http://lercontosdeterror.blogspot.com.br

Asfixia

Começou aos poucos, quase sem ser notado. As crianças foram as primeiras a sentir os efeitos, parando no meio das brincadeiras de pega-pega, esquecendo o futebol pela metade, preferindo montar quebra-cabeças à correria. Depois o boato tomou as conversas em bares, as janelas leva-e-traz das faladeiras, os programas de entrevistas, até virar notícia oficial, grave em seu chamado de cadeia nacional, transmitida a cada povo do planeta por seu próprio governante.

Não se sabia a origem do fenômeno. Nos botecos, diziam que a Terra atravessava uma região do espaço ocupada por elementos de anti-matéria que sugavam a atmosfera. As tevês culpavam os raios solares, a camada de ozônio, o El Niño. Saltando de janela em janela, entre fofocas e ladainhas, um versículo do Apocalipse ecoava: “e o sétimo anjo derramou sua taça pelos ares”. Não havia consenso, mas o fato é que a Terra, como um balão cheio de minúsculos furos, vazava gases para o cosmos.

O mundo estava perdendo ar.

Há menos de um mês, João se divertia com as piadas de narigudos fungando porções extras de oxigênio, ou dava opiniões em rodas animadas sobre qual era a quantidade mínima do gás precioso para que o homem pudesse sobreviver fazendo sexo todo dia. Havia sim as piadas, mas João reconhecia, modulado nos timbres das vozes, escondido permeando risos, o inconfundível tom do medo.

A cada dia o ar se tornava mais rarefeito, e não se descobria a causa.

Com o corpo afundado numa cadeira na varanda de seu chalé à beira-mar, comprado com os anos de salário como mergulhador, João refletia: havia trabalhado em plataformas de petróleo, consertando tubos e juntas a grandes profundidades. Aposentara-se imaginando uma velhice tranquila, apesar de solitária, já que as longas estadas em alto-mar não conciliavam com uma esposa fiel. Revivia pelas imagens em sua memória as centenas de mergulhos realizados na juventude. Relembrava os rostos que vira atrás das máscaras quando, mal calculado, o oxigênio nos cilindros subitamente chegava ao fim ainda nas profundezas. Vira olhos arregalados, primeiro de espanto, depois de terror. Vira as mãos cegas, desesperadas, procurando ar onde não havia, tentando agarrar o companheiro e arrancar de sua boca o regulador, para então se cravarem na própria garganta e aceitarem o destino. Vira-os flutuarem sem vida, asfixiados. Ele mesmo já estivera em situação semelhante, os pulmões colados, a cabeça explodindo, o coração desorientado. Só se salvara por estar mais perto da superfície, onde outro mergulhador pôde compartilhar seu gás; lá embaixo a reserva seria insuficiente, e tentar salvar um amigo seria condenar dois à morte.

João notou que as crianças haviam desaparecido e, com elas, as brincadeiras. Ninguém se apressava mais; não havia fôlego. A rua, antes alegre e barulhenta, agora estava deserta. Não era apenas a falta da gritaria da molecada que deixava a rua quieta. Cachorros já não latiam nem corriam atrás de gatos, estes também desaparecidos. Aves não voavam. O vento, como se precisasse de oxigênio para soprar, tampouco zunia. Os carros e tudo que pudesse poluir a atmosfera vaporosa foram proibidos mundialmente, e o descumprimento desses e outros decretos, sob aplicação marcial, eram punidos com execução sumária. João estava com medo. Não gostava daquele silêncio; fazia-o se lembrar da mudez dos abismos oceânicos.

Levantou-se lentamente, à maneira dos anciãos, e foi à cozinha. Preparou um copo de leite frio e bolachas. Há dois dias o governo também proibira o fogo. Qualquer atividade que se servia da combustão estava suspensa. Os alimentos eram consumidos crus. João não via problemas nisso; preocupava-o mais o momento em que, ou por falta de energia nas máquinas ou pela insuficiência da energia humana, a comida começasse a escassear.

        Voltou à varanda, apoiando-se nas paredes, fatigado e zonzo. Impossibilitado de manter-se em pé, jogou-se na cadeira e ligou o rádio, observando o peito subir e descer apenas levemente, como se respirasse pela metade. As transmissões eram raras. Somente os informes do governo cumpriam com a pontualidade, impondo novas sanções ou trazendo notícias da asfixia global. João tinha esperanças de ouvir que o fenômeno era passageiro, que fora descoberta a causa do flagelo, o motivo de a Terra estar se esvaziando de oxigênio. Mas nada; somente notas sombrias: mortes, suicídios, mais um mercado saqueado, famílias presas em grandes edifícios sem ter para onde ir, um pai desesperado por alimentar os filhos, errante após o toque de recolher, fuzilado pela Guarda Nacional. Ao menos ali, no interior, tinham um pouco de comida para dividir; mas o ar – o precioso ar – faltava a todos.

        João foi dormir mais cedo. Sonhou que nadava no fundo do mar, sem equipamentos, mas respirava normalmente e se movia ligeiro como os golfinhos. Apesar da escuridão, podia ver os peixes, os corais, abismos e... Luzes! Não as podia identificar, apenas que se aproximavam. Luzes. Aproximando-se. O medo espetou-o como farpa sob as unhas: aquelas luzes eram seus companheiros mergulhadores, mortos e perdidos na imensidão oceânica, as cavidades oculares brilhando como faróis. Cercaram-no e o agarraram pelo pescoço, as mãos mortas se fechando e o estrangulando. João sentiu os olhos arregalarem como um afogado e o ar sumiu de seus pulmões. Acordou com o susto, no breu do quarto, arfando, ainda sem fôlego. Custou a perceber que o sonho se fora, pois também se fora o ar, e ali em sua cama parecia que nadava em apnéia.

Levantou-se para um copo de água. Da janela da cozinha, ouviu alguém chorar. Alegrou-se com aquele som. Mesmo sendo um lamento, era produzido por alguém! Não estava só, afinal! Vinha da casa ao lado. O choro era fraco, de criança. Ouviu gritos de uma mulher; provavelmente a mãe. Pedia socorro, parava, arqueava, pedia de novo. Ninguém respondia.

João vestiu uma camisa, cambaleou pelo quintal e bateu à porta. Lá dentro a mãe se desesperava em ver a criança no berço, rosto azulado, tomada por convulsões. A pobre criatura nascera asmática e o ar lhe fazia mais falta. O pai implorava por ajuda.

O ex-mergulhador possuía um cilindro de oxigênio em casa. Pegou-o e o levou para a criança. Ensinou o uso e, quando disse que ia embora, viu nos olhos da mãe a mesma agonia dos asfixiados; aquela mulher seria capaz de matar pelo cilindro. Mas João não pensava em levar equipamento de volta. Apenas aconselhou parcimônia, pois não havia outros iguais àquele. Voltou se arrastando, seguido por pensamentos desoladores. Em breve, todos estariam da cor do bebê, afogados em plena terra firme.

Os dias amanheciam cada vez mais abafados. Os poucos que se aventuravam na rua não mais andavam, arrastavam-se de quatro. João, de sua cadeira, ria da ironia da vida. A raça humana, que se destacara na evolução por andar sobre duas pernas, inclinava-se e devolvia as mãos ao solo. Movia-se como bichos.

A dor nos pulmões era cruciante, a cabeça girava. Não era como no fundo do mar, que o ar faltava de uma só vez. Ali a coisa ia aos poucos. A morte demorava, como se precisasse de oxigênio para sua manejar sua foice, mas ele sabia que cedo ou tarde ela chegaria. Vez ou outra se ouvia um estampido. Alguém, no mais profundo desespero, antecipava o fim. Pior quando ouvia quatro, cinco tiros: uma família inteira se fora!

João não tinha uma arma.

As transmissões haviam cessado completamente. Nenhuma voz, nenhuma notícia, nada de esperança. O bebê do vizinho estava morto, assim como a mãe. Ninguém mais enterrava seus defuntos. O pai saíra rastejando pela rua e não voltara mais. Os homens agora se moviam sobre o ventre, como répteis. Despediam-se da vida com o rosto ao chão.

João caiu da cadeira, arrastou-se pela rua passando por cima de aves mortas. Rolou o barranco, tossindo, vomitando com esforço, quase desfalecendo. Fincou os dedos na areia da praia, puxando o corpo. Sorriu quando a primeira onda molhou seu rosto. Olhou para os lados e viu cadáveres; o caminho até o mar interrompido pela asfixia. A humanidade, como amante traída pelos ares que a sequestrara das águas, tateava o retorno ao berço Paleozóico.

Continuou a se arrastar até que as ondas lhe submergissem a cabeça.

João engoliu o primeiro gole, o segundo, o terceiro, enquanto procurava pelos olhos brilhantes dos afogados e pelas mãos que fechariam de vez sua garganta.

Fonte: contosdelitfan.blogspot.com